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Tribunal brasileiro decidirá se a mina de ouro da Belo Sun na Amazônia permanece suspensa.

18 de maio de 2026 | Gabriela Sá Pessoa | Associated Press

Crédito: Kamikia Kisedje/APIB

Um projeto de mineração altamente contestado na floresta amazônica brasileira, operado pela empresa canadense Belo Sun, deverá atingir um marco importante nesta quarta-feira, quando um tribunal brasileiro decidirá se mantém ou não uma decisão que poderá impulsionar o projeto.

O tribunal de Brasília determinará se o governo federal ou o estado do Pará, onde a mina está planejada, tem autoridade para conceder as licenças ambientais para o projeto.

Desde 2012, a Belo Sun busca estabelecer a mina de ouro Volta Grande às margens do rio Xingu, no estado do Pará. O local fica a cerca de 20 quilômetros (12.4 milhas) de Belo Monte, a terceira maior usina hidrelétrica do mundo, cuja operação reduziu a vazão do rio e afetou gravemente as comunidades locais.

Eis o que você precisa saber sobre o caso e os próximos passos:

Onde fica o projeto de mineração e qual seria o impacto na Amazônia?

A mina Volta Grande está projetada para ser o maior local de extração de ouro na Amazônia brasileira.

De acordo com um estudo de viabilidade de 2015 apresentado pela Belo Sun, a empresa pretende extrair 3.52 milhões de onças de ouro ao longo de 17 anos, escavando mais de 600 milhões de toneladas de material. A mina abrangeria 24 quilômetros quadrados (9.2 milhas quadradas) e afetaria 125 hectares (309 acres) da floresta amazônica.

Uma avaliação independente realizada em 2021 por cientistas da Universidade de São Paulo e da Universidade do Amazonas concluiu que o projeto era muito arriscado e deveria ser rejeitado.

A principal preocupação do relatório era a proposta de construção de uma barragem de rejeitos, projetada para armazenar resíduos de mineração diretamente acima de um canal de água próximo ao rio Xingu. Os cientistas afirmaram que qualquer rompimento da barragem poderia lançar rapidamente resíduos tóxicos no rio, ameaçando as comunidades indígenas e ribeirinhas, bem como o ecossistema.

A mina também deslocaria 813 famílias, segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). Essas populações, já severamente afetadas pelas secas após o projeto Belo Monte, poderiam sofrer danos adicionais. A barragem de Belo Monte reduziu a vazão no trecho do rio Xingu onde o projeto Belo Sun está localizado.

Citando uma análise da organização sem fins lucrativos Amazon WatchOs promotores estimaram que a mina Volta Grande seria responsável por emissões totais de cerca de 3.7 milhões de toneladas de dióxido de carbono, um gás de efeito estufa que contribui para o aquecimento global. A estimativa pressupõe a emissão de uma tonelada de dióxido de carbono para cada 28 gramas de ouro extraído.

Por que isso foi contestado

O licenciamento da Volta Grande enfrentou oposição desde o início.

Em 2013, os procuradores tentaram interromper o processo, alegando falta de consulta adequada às comunidades indígenas afetadas. Em 2017, o painel completo de um tribunal federal concordou, exigindo a aprovação do governo federal e a consulta formal às comunidades indígenas antes que o projeto pudesse prosseguir.

No entanto, em 2025, os juízes anularam essa decisão e devolveram as licenças ao estado do Pará. Os promotores recorreram, argumentando que a decisão recente equivalia a um novo julgamento. O tribunal se pronunciará sobre o recurso na quarta-feira.

Em dezembro passado, as comunidades indígenas Juruna e Arara do Xingu divulgaram uma carta aberta afirmando que nunca concordaram com o projeto, conforme exigido pela decisão de 2017. Em um comunicado compartilhado com a Associated Press, a Belo Sun afirmou ter realizado a devida consulta aos povos indígenas, observando os protocolos estabelecidos pelas comunidades afetadas e sob a supervisão das autoridades.

Os procuradores federais argumentaram que o governo brasileiro – e não o governo local do Pará – deveria aprovar o projeto devido aos seus impactos em nível nacional. O projeto afetaria territórios indígenas, o que é uma questão federal, impactaria o Rio Xingu – uma hidrovia federal – e afetaria ainda a usina hidrelétrica de Belo Monte, construída pelo governo federal.

“Desde o início, como fizemos em Belo Monte, argumentamos que o licenciamento está sob jurisdição federal porque afeta terras indígenas e um rio federal”, disse o procurador federal Felício Pontes Jr., que está trabalhando no caso.

Ele acrescentou que os impactos cumulativos da barragem hidrelétrica são uma questão central. Os tribunais brasileiros já determinaram que os impactos de Belo Monte foram muito maiores do que o previsto inicialmente.

Em decisões recentes, os tribunais ordenaram indenizações para as comunidades afetadas e exigiram que a Norte Energia, empresa que opera a barragem, forneça água potável às famílias cujas fontes naturais secaram, além de revisar a quantidade de água que desvia do rio Xingu para operar suas turbinas.

“Isso poderia gerar um grande conflito se não houver uma única autoridade licenciando ambos os projetos, considerando os impactos que um projeto tem sobre o outro”, disse o promotor.

O que acontece depois

Caso o tribunal decida devolver o caso ao governo federal, a medida poderá invalidar as licenças ambientais concedidas em 2025 à Belo Sun pelo estado do Pará. De qualquer forma, as partes ainda podem apresentar contestações. Outras ações judiciais questionando o projeto também estão pendentes nos tribunais.

Antes da votação, a Belo Sun anunciou o início de novos estudos técnicos para o projeto Volta Grande. Em 12 de maio, a empresa informou ter contratado uma consultoria de mineração para revisar e atualizar os estudos técnicos para a Licença de Instalação. O objetivo é identificar melhorias, delinear atualizações para um estudo de viabilidade definitivo e desenvolver um plano de projeto em fases. A Belo Sun espera concluir esta etapa até o terceiro trimestre de 2026.

A Belo Sun afirmou que a mina Volta Grande continua sujeita ao licenciamento ambiental por parte das autoridades reguladoras e judiciais competentes no Brasil.

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