Altamira, Brasil – Um mês após o início do seu ocupação da sede da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) em AltamiraMulheres indígenas da região do Médio Xingu lideraram ontem uma ação pacífica para exigir o cancelamento da licença de instalação da megamina Volta Grande, da mineradora canadense Belo Sun. Mais de 200 manifestantes marcharam até a câmara municipal de Altamira, onde pediram aos vereadores que se posicionassem publicamente em defesa dos direitos dos povos indígenas, das comunidades ribeirinhas, dos pescadores e das comunidades tradicionais ameaçadas pelo projeto.
O Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu organizou a manifestação, reunindo mulheres Parakanã, Xipaya, Arara, Kuruaya, Juruna, Xikrin e de outros povos indígenas da região, juntamente com representantes de comunidades pesqueiras e ribeirinhas, movimentos de mulheres negras e movimentos de mulheres da periferia urbana, coletivos culturais e o sindicato dos professores. Carregando cartazes com os dizeres "Eles querem ouro, nós queremos vida". Com o lema “A vida vale mais que ouro”, o protesto centrou-se nas denúncias da ocupação da FUNAI, que durou um mês, sobre as tentativas de aprovar outro megaprojeto ao lado da barragem de Belo Monte, no rio Xingu. A ação denunciou a negligência na avaliação dos riscos do projeto, as falhas no processo de licenciamento e a exclusão de comunidades ameaçadas do planejamento.
“Estamos acampados no escritório da FUNAI há um mês em condições muito difíceis, sem barracas, sem colchonetes e sem comida suficiente para o nosso povo. É doloroso ter que lutar pelos nossos direitos sem receber o apoio necessário. Por isso, pedimos a solidariedade do povo de Altamira. Este projeto impactará todo o território e prejudicará diretamente as nossas comunidades. Queremos a saída da Belo Sun e a anulação da sua licença”, disse Ngrenkarati Xikrin, um dos líderes da ocupação.
Impactos cumulativos da Belo Sun com a barragem de Belo Monte
A mobilização ocorre em uma região onde os impactos duradouros de Belo Monte continuam a devastar o cotidiano, dizimando estoques pesqueiros, interrompendo o fluxo de água, bloqueando a navegação fluvial e deslocando famílias tradicionais de seus territórios. Para as organizações que se uniram ao protesto, a promessa de “progresso” associada a Belo Sun repete um padrão já conhecido em Altamira: projetos de grande escala vendidos como desenvolvimento, mas implementados ao custo de graves danos sociais, ambientais e territoriais, como ocorreu com a mega-represa de Belo Monte.
“Após um mês de ocupação, o que deveria envergonhar as autoridades públicas não é apenas o fato de nós, mulheres, permanecermos no escritório da FUNAI, mas sim o fato de ainda sermos obrigadas a ir às ruas para exigir respostas que o Estado deveria ter dado há muito tempo. A Volta Grande do Xingu já carrega as cicatrizes de Belo Monte. Impulsionar o projeto Belo Sun com estudos ambientais desatualizados, um processo de consulta indígena contestado e a exclusão de comunidades indígenas e ribeirinhas é repetir, na escala de um projeto de mineração, uma história de destruição que Altamira conhece muito bem”, afirmou Sol Juruna, da aldeia de Paquiçamba, integrante do movimento.
Na segunda-feira, a Direção de Gestão Ambiental e Territorial da FUNAI enviou um carta oficial A carta é dirigida à Belo Sun, à Secretaria de Meio Ambiente do Pará (Semas) e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). A carta reitera a necessidade de uma análise complementar dos impactos cumulativos do Projeto Volta Grande da Belo Sun em conjunto com o Projeto Belo Monte. No documento, a FUNAI afirma ter emitido termos de referência complementares para a elaboração de um Estudo de Impacto Cumulativo no âmbito do componente indígena do processo de licenciamento. O estudo terá como foco os Territórios Indígenas Paquiçamba, Arara da Volta Grande do Xingu, Trincheira-Bacajá e Ituna-Itatá, bem como a Reserva Indígena Jericoá e outras comunidades com presença indígena na Volta Grande do Xingu.
A FUNAI afirma que este novo estudo deve mensurar como os impactos da mina, juntamente com os de outros projetos atuais, planejados ou previsíveis, se acumulam nos territórios indígenas da região ao longo do tempo. A própria FUNAI observa que os resultados desta análise irão embasar seu posicionamento final sobre a viabilidade do Projeto Volta Grande sob a perspectiva dos direitos dos povos indígenas. A carta também relembra alertas anteriores da Norte Energia, operadora de Belo Monte, que em 2022 manifestou preocupação com a sobreposição entre a mina e Belo Monte, citando uma “incompatibilidade entre os projetos hidrelétrico e de mineração”.
Estudos recentes reforçam a gravidade deste caso. O relatório Direitos de Mineração Perdidos: Os Impactos da Mineração nos Povos Indígenas e no ClimaUm relatório divulgado pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI) na COP30 argumenta que o Projeto Volta Grande não pode ser tratado isoladamente. Segundo os pesquisadores, os interesses de mineração da Belo Sun na região abrangem 186,491 hectares — uma área equivalente a cerca de 261,000 campos de futebol — incluindo pedidos de exploração, autorizações de exploração e pedidos de mineração. Essa expansão territorial ameaça pelo menos 20 aldeias indígenas. O projeto em si inclui duas minas a céu aberto, detonações, reservatórios e uma grande barragem de rejeitos diretamente às margens do Rio Xingu.



