Santarém, Pará, Brasil – Hoje, 400 indígenas em quatro barcos interceptaram uma barcaça graneleiro no rio Tapajós, na cidade de Santarém (PA). A ação pacífica teve como objetivo chamar a atenção do governo federal e do público em geral para os impactos da transformação dos rios amazônicos em corredores de exportação. Os manifestantes indígenas se aproximaram da embarcação no trecho urbano do rio, enquanto ela estava atracada no porto da multinacional de comércio de commodities Cargill. A barcaça faz parte da cadeia de suprimentos de soja que opera pelo corredor logístico do Arco Norte. O terminal de grãos da Cargill tem sido bloqueada por povos indígenas desde 22 de janeiro E a ação de hoje aumentou a pressão sobre suas instalações de carregamento às margens do rio.
Enquanto a polícia impedia que as embarcações se aproximassem da barcaça de grãos, muitos manifestantes pularam no rio e conseguiram embarcar na enorme embarcação, desfraldando cartazes com os dizeres “O Rio Tapajós não está à venda” e “Revoguem o Decreto de Morte”.
Manifestantes indígenas exigem a revogação de Decreto 12,600/2025, que incluía os rios Madeira, Tapajós e Tocantins no Programa Nacional de Privatização do Brasil, bem como a anulação imediata de planos para dragar o rio TapajósSegundo líderes indígenas, o Decreto 12,600 abre caminho para a privatização da “manutenção da navegação” nos rios amazônicos, autorizando dragagens destrutivas e intervenções estruturais para acelerar a exportação de commodities como soja e milho.
“Este rio é a nossa estrada. É a nossa fonte de alimento, o lar dos nossos peixes e essencial para o equilíbrio da floresta e do clima. Como essa riqueza pode ser transformada em um corredor para a soja? E pior, sem ouvir os povos que vivem nele e dele dependem? É por isso que estamos aqui — porque queremos que o Brasil respeite a Convenção 169 da OIT e nos consulte antes de tomar decisões. Este decreto foi assinado primeiro, e agora querem discutir como nos consultar? Isso não é consulta; é uma tentativa de legitimar o que já foi decidido. E decidido por quem? Para quem? Para beneficiar um punhado de empresas estrangeiras, como a Cargill, que lucram com violações de direitos humanos e ambientais na Amazônia”, disse Auricélia Arapiuns, líder da região do Baixo Tapajós.
O bloqueio, que já dura semanas, ocorre em meio à expansão do corredor logístico do Arco Norte, que inclui o Ferrogrão A mega-ferrovia, planejada para aumentar significativamente as exportações de grãos através da cidade de Sinop, no estado de Mato Grosso, até os portos do rio Tapajós em Miritituba, no Pará. O leilão da concessão ferroviária está agendado para setembro., apesar de o projeto ainda estar sob liminar no Supremo Tribunal Federal do Brasil.
Impactos do Corredor do Arco Norte
Organizações e estudos socioambientais alertam que a transformação dos principais rios da Amazônia em hidrovias industriais para aumentar os lucros do agronegócio acarreta altos custos para territórios e comunidades tradicionais, para a biodiversidade e para o clima. Entre os impactos citados estão a pressão sobre comunidades indígenas, quilombos e outras comunidades locais; a especulação e a grilagem de terras; a expansão do cultivo de soja para áreas mais profundas da Amazônia; a contaminação da água; alterações na dinâmica do fluxo dos rios; e o aumento da violência ao longo das rotas de transporte da soja.
Para Alessandra Korap Munduruku, líder da região do Médio Tapajós, os impactos já são sentidos. Em frente à Reserva Indígena da Praia do Mangue, portos irregulares e silos de soja deslocaram populações de peixes e poluíram as águas utilizadas pelas comunidades Munduruku.
“Com o aumento das exportações de soja pelo rio Tapajós, vieram mais dragagens, mais portos e um tráfego de barcaças mais intenso. Já estamos vendo peixes com anormalidades, peixes desaparecendo, peixes contaminados, com a barriga cheia de grãos. Enquanto os de fora se concentram apenas na economia, esquecem-se da segurança alimentar. Se isso se expandir, esse veneno entrará cada vez mais na cadeia alimentar das cidades próximas”, alertou o vencedor do Prêmio Ambiental Goldman de 2023.
Maria Leusa Munduruku destacou os limites naturais dos rios amazônicos, que, segundo ela, estão sendo desrespeitados pelas operações de dragagem que alteram seu fluxo natural. “O rio tem seu próprio ritmo — sua época de cheias e sua época de seca. Quando aprofundam, alargam e forçam a navegação durante o ano todo, quebram esse ciclo. Nosso povo sempre ensinou que devemos respeitar os limites do rio. Quando esses limites são ignorados, secas extremas e desequilíbrios se seguem. E, neste caso, não é apenas o Tapajós que sofre, mas toda a região”, afirmou.
“É essencial analisar criticamente os impactos cumulativos do projeto Arco Norte. O Ferrogrão, a expansão dos portos graneleiros privados e a hidrovia do Tapajós, juntos, podem aumentar o volume de soja de cinco a sete vezes, intensificando a pressão sobre os territórios tradicionais. As consequências vão além dos impactos no rio Tapajós, impulsionando ainda mais o desmatamento e ameaçando os próprios compromissos climáticos do Brasil de reduzir a perda florestal”, afirmou Renata Utsunomiya, analista de políticas de transporte da GT Infraestrutura, uma coalizão de organizações da sociedade civil.
Povos das Bacias do Madeira, Tocantins e Xingu
Esta semana, o bloqueio da Cargill, liderado por povos indígenas do rio Tapajós, recebeu reforços de contingentes Kayapó e Panará que viajaram da bacia do rio Xingu, no Mato Grosso e no Pará, elevando seu número para 1,200 e ampliando a representação dos povos indígenas da região. A mobilização também conta com o apoio de povos indígenas e movimentos sociais da Madeira e do Tocantins, cujos rios também estão ameaçados pelo Decreto 12,600.
A presença de povos do Xingu sublinha que este conflito se estende para além do bloqueio de Santarém. No Mato Grosso, cresce a preocupação com a expansão da soja perto de territórios indígenas, especialmente após os recentes protestos. cortes na moratória da soja na AmazôniaO povo Panará também carrega o trauma histórico da construção da rodovia Cuiabá-Santarém, que resultou na morte de 66% de sua população, segundo a Comissão Nacional da Verdade do Brasil.
“Não estamos aqui apenas pelo Tapajós, mas contra a privatização dos rios amazônicos. A soja que avança pelo território Capoto-Jarina é empurrada pela rodovia BR-163 e desce pelo Tapajós. Se o governo privatizar esses rios, estará acelerando o mesmo mecanismo que ameaça nossos territórios. É por isso que viemos nos solidarizar com o Tapajós”, disse Takakpe Mektutire, do Instituto Raoni.





