Santarém, Pará, Brasil – No 13º dia de bloqueio ao terminal de grãos da Cargill em Santarém, manifestantes indígenas exigem diálogo presencial com o governo federal brasileiro, após a recusa deste em enviar representantes para uma reunião na semana passada. A chegada de dezenas de representantes Munduruku, vindos do alto do rio Tapajós, reforçou essa reivindicação crucial de serem ouvidos e ampliou o bloqueio indígena, que já conta com 700 manifestantes, antes da reunião agendada para hoje.
O bloqueio é liderado por 14 povos indígenas da bacia do Baixo Tapajós e exige a revogação de Decreto 12,600/2025O decreto, que incorpora trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins ao Programa Nacional de Privatização (PND) do Brasil, abre caminho para a conversão de rios vitais da Amazônia em hidrovias industriais, por meio de medidas para “manter a navegabilidade” de grandes barcaças através de operações de dragagem altamente poluentes. Os manifestantes denunciam que essas medidas estão sendo realizadas sem consulta prévia, livre e informada, conforme exigido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
O movimento também está desafiando um manutenção federal A licitação para a dragagem do trecho entre Santarém e Itaituba, publicada em 23 de dezembro, tem um orçamento de R$ 74.8 milhões (US$ 14.22 milhões) ao longo de três anos.
A chegada do contingente Munduruku ao bloqueio da Cargill ocorre em meio ao desenvolvimento intensificado de um complexo logístico de exportação ao redor da cidade de Itaituba, onde comunidades tradicionais, como a Reserva Indígena Munduruku Praia do Mangue, estão localizadas, enfrentando portos e silos de soja do outro lado do rio Tapajós. Na visão dos líderes indígenas, uma política de “via navegável baseada em concessões” e a dragagem provavelmente aumentarão o tráfego de barcaças pesadas, pressionarão a pesca e representarão riscos para locais de importância cultural e espiritual, enquanto portos de grãos continuam a ser construídos de forma irregular ao longo do rio.
Uma pesquisa por Terra de Direitos Foram mapeados 41 portos em fase de planejamento, construção ou operação em Itaituba, Santarém e Rurópolis. - aproximadamente o dobro do número registrado em 2013 - O estudo apontou ainda lacunas recorrentes no licenciamento e na consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais. O estudo também observa que o primeiro porto de carga da região foi instalado em 2003 pela Cargill e descreve a predominância de infraestrutura voltada para o transporte de grãos e cargas perigosas, aumentando os riscos para o rio e para as populações ribeirinhas e indígenas.
“Essa infraestrutura que está sendo construída não é para nós, e nunca será. É um projeto de morte, destinado a matar nosso rio e nossos lugares sagrados. São projetos que visam expulsar os povos indígenas, as comunidades ribeirinhas e os pescadores. O mundo inteiro diz estar preocupado com as mudanças climáticas, mas quem realmente se preocupa somos nós, que vivemos do rio e da floresta. É preciso haver respeito e consulta urgentes, e uma condição essencial dessa consulta deve ser a revogação do Decreto 12,600. O rio e a água têm uma mãe, têm espírito, têm história, e por ser a nossa história, muitas pessoas não querem fazer nada”, disse Alessandra Korap Munduruku, líder indígena que recebeu o Prêmio Ambiental Goldman de 2023.
Em um Declaração oficialO Ministério dos Povos Indígenas do Brasil afirmou que o Tapajós é “vida, território, memória” e reconheceu a legitimidade das preocupações levantadas, enfatizando que nenhuma atividade de dragagem, manutenção hidroviária ou projeto no rio pode prosseguir sem o “consentimento livre, prévio, informado e de boa-fé dos povos diretamente afetados”, em conformidade com a Convenção 169 da OIT e a Constituição do Brasil, incluindo consulta presencial e garantias tangíveis de segurança.
“O que está acontecendo no Tapajós não é um episódio isolado: é a consequência direta de decisões que tratam os rios como corredores de exportação e impulsionam projetos sem escuta ativa e sem salvaguardas de direitos. Durante a COP30, mais de 500 indígenas alertaram o mundo sobre os riscos dos projetos ligados ao corredor de exportação Ferrogrão e à dragagem do Tapajós.” - E, ainda assim, suas reivindicações permanecem sem uma resposta efetiva. A comunidade internacional, os compradores e os financiadores não podem continuar normalizando um "progresso" que alimenta conflitos e ameaça territórios vivos", disse Vivi Borari, líder indígena e ativista do Movimento Tapajós Vivo, organização membro da Aliança Basta de Soja.
“Enquanto a Cargill diz à imprensa “Eles não têm controle sobre a expansão desenfreada da infraestrutura voltada para a exportação na Amazônia, pelo contrário”, disse Christian Poirier. Amazon Watch Diretora do Programa. “São as demandas de poderosas empresas de comércio de commodities, como a Cargill, que impulsionam a privatização destrutiva dos rios amazônicos e a construção de megaprojetos como o Ferrogrão. A mobilização indígena escolheu o terminal de grãos da Cargill por esse motivo, para responsabilizá-los juntamente com setores do governo brasileiro.”




