Santarém, Pará, Brasil – Durante a última semana, povos indígenas representando 14 etnias da região do Baixo e Médio Rio Tapajós bloquearam Instalações operadas pela multinacional do agronegócio Cargill em Santarém, protestando contra intervenções industriais destinadas a acelerar as exportações de produtos agrícolas.
Em dezembro, o governo federal brasileiro emitiu um licitação pública O projeto prevê três anos de dragagem do rio entre Santarém e Itaituba. O plano avança apesar da ausência de licença ambiental e sem respeitar o direito à consulta livre, prévia e informada das comunidades afetadas, conforme exigido pela Convenção 169 da OIT.
A licitação faz parte de uma mudança política mais ampla impulsionada por Decreto nº 12,600A lei que autoriza a concessão de rios amazônicos a empresas privadas amplia as intervenções em larga escala em áreas sensíveis, incluindo regiões com sítios arqueológicos e territórios sagrados. Essas medidas estão diretamente ligadas à expansão da infraestrutura de transporte e exportação de soja na Amazônia. Cerca de 150 pessoas permanecem acampadas na entrada do terminal fluvial da Cargill, denunciando a privatização do rio Tapajós e exigindo a suspensão imediata do projeto de dragagem.
Para Lucas Tupinambá, presidente do CITA, Conselho Indígena dos Tapajós-Arapiuns, o bloqueio é resultado direto do Estado brasileiro e de corporações globais que, de forma irresponsável, impulsionam projetos de infraestrutura na Amazônia, ignorando reivindicações antigas dos povos que vivem na região:
“Estamos entrando no sétimo dia de protestos às margens do Rio Tapajós, mostrando que não aceitaremos um modelo que priorize a exportação de commodities, ignorando os direitos indígenas e a legislação ambiental. Queremos nosso rio vivo, não um corredor de exportação morto que só beneficia corporações como a Cargill. Pelo bem de nossas comunidades e do futuro de todos, o governo brasileiro deve interromper esse perigoso processo de privatização da hidrovia e impedir o avanço dessa rota destrutiva da soja!”
Durante um recente Caravana para a COP30Mais de 40 movimentos e organizações sociais percorreram a chamada rota da soja para expor e denunciar os impactos das exportações de commodities e promover alternativas agroecológicas. Segundo Pedro Charbel, Amazon Watch Assessora da Campanha do Brasil, o conflito do Tapajós reflete uma dinâmica nacional e internacional muito mais ampla:
“O rio Tapajós é peça central de um projeto muito maior, liderado pelo agronegócio e por comerciantes globais de commodities, para transformar os rios amazônicos em corredores industriais de exportação de soja e milho. Hidrovias corporativas, portos de grãos e megaprojetos propostos, como a ferrovia Ferrogrão, ameaçam os povos indígenas e levam os biomas da Amazônia e do Cerrado a um colapso irreversível. O chamado corredor de exportação do Arco Norte já está impulsionando o desmatamento e erodindo a sociobiodiversidade, tudo para o lucro de poucos.”




