No Brasil, o ano de 2026 começou com duas grandes mudanças institucionais que ameaçam redefinir a forma como os projetos de grande escala avançam na Amazônia, ao mesmo tempo que enfraquecem drasticamente as salvaguardas socioambientais destinadas a proteger as florestas e os povos.
Dias após o encerramento da cúpula climática COP30, uma ampla maioria no Congresso brasileiro derrubou os vetos do presidente Lula à Lei Geral de Licenciamento Ambiental, popularmente conhecida como “Lei Geral de Licenciamento Ambiental”.Lei da DevastaçãoImpulsionados pelo agronegócio e outros setores econômicos ávidos por terras, os legisladores aprovaram uma estrutura que reduz drasticamente os processos de licenciamento criados para prevenir danos e proteger o meio ambiente. Com a lei agora em vigor, mecanismos como a "Licença por Adesão e Compromisso" permitem que as empresas ignorem as agências reguladoras e obtenham rapidamente a "autolicenciamento" da maioria dos projetos, mesmo quando estes acarretam sérios riscos sociais e ambientais.
A nova lei também transfere a supervisão do licenciamento ambiental do governo federal para os estados, retira a autoridade de órgãos federais como o Conselho Nacional do Meio Ambiente e enfraquece a consulta aos povos indígenas e às comunidades afetadas. quilombola Comunidades afrodescendentes. Sua capacidade de acelerar projetos altamente destrutivos com supervisão mínima não pode ser subestimada. As implicações para a Amazônia e seus povos são profundas.
Ao mesmo tempo, com o fim de 2025 se aproximando, o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil retomou seu perigoso debate sobre os direitos territoriais indígenas. Embora uma decisão recente tenha reafirmado a falácia da alegação de que os direitos territoriais indígenas são questionáveis. “limite de tempo” (Prazo) tese A decisão é inconstitucional e, ao mesmo tempo, enfraquece o arcabouço constitucional que protege os direitos indígenas e permite a demarcação de territórios tradicionais desde 1988. Redigida pelo juiz Gilmar Mendes, que possui um longo histórico de posicionamentos anti-indígenas, a sentença desmantela proteções fundamentais aos direitos territoriais.
Uma cláusula estabelece que os povos indígenas que não apresentarem formalmente suas reivindicações territoriais no prazo de um ano perderão o direito à demarcação de seus territórios. Em vez de tratar a demarcação como um processo distinto, constitucionalmente protegido e fundamentado na identidade indígena e nos direitos ancestrais, essas reivindicações seriam desviadas para o âmbito da “expropriação de terras por interesse social” do governo. Esse sistema está enraizado no controverso modelo de reforma agrária do Brasil, criado para combater a falta de terras entre os trabalhadores rurais, e não para reconhecer e proteger os territórios indígenas.
A decisão também proíbe ações de recuperação de terras, uma estratégia política central para os movimentos indígenas no Brasil desde a promulgação da Constituição de 1988. A recuperação autônoma de terras e o monitoramento territorial pressionam o governo há tempos a garantir os direitos indígenas. A remoção dessa ferramenta torna muito menos provável o avanço da demarcação formal. A decisão constitui um ataque direto aos povos indígenas, à proteção ambiental e à estabilidade climática.
A perspectiva realista para o Brasil em 2026 é de um cenário em que grandes projetos de infraestrutura e extração mineral avançarão com salvaguardas e fiscalização pública drasticamente reduzidas. Territórios e comunidades ficarão mais expostos à invasão e à apropriação de recursos naturais por empresas e pelo governo. A erosão das proteções provavelmente agravará as violações de direitos e intensificará os conflitos sociais, sobrecarregando ainda mais o judiciário, que será obrigado a mediar disputas sem marcos legais adequados.
Para Amazon WatchPara as campanhas prioritárias de [nome da organização], este cenário está longe de ser abstrato. Ele remodela o equilíbrio de poder em torno de projetos extrativistas e acelera os cronogramas políticos. Também cria um sério risco de que mudanças legais sejam exploradas como atalhos para empreendimentos de alto impacto e alto conflito.
A Belo Sun Mining, empresa canadense que busca construir a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil às margens do Rio Xingu, ilustra claramente essa ameaça. Com a contínua alta dos preços do ouro, a empresa poderia tentar obter a classificação de seu projeto como “estratégico” pelos órgãos reguladores do estado do Pará. De acordo com a Lei de Devastação, essa classificação abriria caminho para um novo procedimento acelerado conhecido como “Licenciamento Ambiental Especial”.
Nesse cenário, o complexo e controverso processo de licenciamento da Belo Sun, que durou 13 anos e foi repetidamente e com sucesso contestado por movimentos sociais e tribunais brasileiros, poderia ser completamente anulado e reiniciado sob um regime regulatório drasticamente enfraquecido. Os riscos que isso representa para o Volta Grande do Xingu e para outros territórios que estão sendo considerados zonas de sacrifício para extração são imediatos e concretos.
A megaferrovia Ferrogrão oferece mais um sinal de alerta. A pressão de setores do governo federal e do lobby do agronegócio gerou um paradoxo institucional. Enquanto o projeto permanece bloqueado por uma liminar do Supremo Tribunal Federal, e apesar dos compromissos do governo Lula de revisar estudos e garantir a consulta às comunidades ameaçadas, órgãos federais já estão avançando com etapas pré-concessão.
No final de 2025, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANT) do Brasil encaminhou ao Tribunal de Contas da União os estudos ambientais do projeto, encomendados pelo Ministério dos Transportes. Isso ocorreu apesar dos alertas de instituições de pesquisa de que os estudos são incompletos e metodologicamente falhos. Essas medidas são claros indícios de que um megaprojeto altamente destrutivo e socialmente controverso será licenciado. Em um contexto de normas ambientais fragilizadas, a ameaça é grave.
Essa iniciativa está se desenrolando como Um dos poucos mecanismos privados que ajudavam a conter a ligação direta entre a soja e o desmatamento da Amazônia está sendo desmantelado.Neste mês, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais anunciou sua retirada da moratória da soja., na sequência da pressão política em Mato Grosso, o principal estado produtor de soja do Brasil. Grandes empresas do setor, incluindo as americanas Cargill, Bunge e ADM, seguiram o exemplo rapidamente.
O cenário para 2026 é cada vez mais perigoso para as florestas brasileiras e suas comunidades. Além da resistência popular contra atores destrutivos cada vez mais ousados, o ano será marcado por disputas sobre regras e precedentes. Na Amazônia, as regras determinam quem é ouvido, quem é protegido e quem paga o preço de um modelo de “desenvolvimento” apresentado como inevitável.
Neste contexto, Amazon WatchA resposta do governo se concentrará em três frentes. Primeiro, fortalecer a liderança e a proteção dos povos indígenas e comunidades tradicionais por meio do apoio a estratégias jurídicas e de comunicação fundamentadas em direitos e protocolos definidos pelas comunidades. Segundo, monitorar e questionar os marcos decisórios que buscam acelerar projetos, para evitar que mudanças legais sejam usadas como arma contra as salvaguardas. Terceiro, aumentar a pressão internacional sobre empresas, financiadores e atores políticos que se beneficiam da desregulamentação, vinculando a defesa territorial à luta global por ações climáticas, direitos e responsabilidade corporativa.
À medida que 2026 se desenrola em meio a ciclos de notícias implacáveis, devemos estar preparados para enfrentar a injustiça em muitas frentes. Como sempre, buscamos força e inspiração nas lutas persistentes dos povos indígenas, cuja determinação e liderança permanecem fundamentais para a resistência coletiva.




