Altamira, Brasil - Associações indígenas Juruna (Yudjá) e Arara da Volta Grande do Xingu anularam formalmente a chamada “consulta” que a mineradora canadense Belo Sun alega ter realizado como parte do processo de licenciamento ambiental para seu Projeto Volta Grande, no coração da Amazônia brasileira.
Na semana passada, enquanto grupos indígenas ameaçados pelos planos da Belo Sun ocupavam a sede regional da FUNAI (Fundação Nacional do Interior) em protesto contra o projeto, uma assembleia de grupos indígenas da região emitiu um comunicado. resolução ordenando a suspensão imediata de qualquer negociação com a empresa. A Belo Sun pretende construir aquela que seria a maior mina de ouro a céu aberto da América Latina às margens do rio Xingu, no estado do Pará, na Amazônia.
No documento, os líderes indígenas afirmam que a consulta apresentada pela empresa é inválida e que “nenhum efeito ou acompanhamento [legal ou processual] pode ser reconhecido” até que o processo seja reavaliado de acordo com os protocolos de tomada de decisão dos próprios povos indígenas.
As associações Juruna e Arara esclarecem que o processo realizado em 2020 tratou exclusivamente do Estudo da Componente Indígena, conhecido como ECI, e não constituiu consulta sobre a implementação do próprio projeto de mineração, nem implicou qualquer forma de consentimento.
“Os povos Juruna e Arara afirmam que não foram consultados sobre a instalação da Belo Sun e, portanto, não emitiram qualquer opinião ou decisão a respeito do projeto”, diz o documento anexado aos autos do Tribunal Federal.
Implicações legais para o projeto
Segundo especialistas jurídicos, a decisão tem consequências diretas para a viabilidade legal do projeto.
“A consulta prévia é um requisito vinculativo estabelecido pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) e uma condição indispensável para o avanço do processo de licenciamento ambiental”, afirmou Ana Alfinito, assessora jurídica da [nome da empresa/organização]. Amazon Watch“A Belo Sun baseou-se no processo de 2020 para alegar que a consulta já havia sido concluída, embora nem todos os povos indígenas afetados tenham sido consultados. Com a retirada formal do reconhecimento por parte dos Juruna e Arara, essa consulta deixa de existir. O processo teria que recomeçar do zero, o que representa um grande obstáculo para a obtenção da licença.”
Na sequência do posicionamento formal dos povos indígenas, o Ministério Público Federal do Brasil solicitou o indeferimento da tentativa da Belo Sun de validar sua Licença de Instalação. Os procuradores argumentaram que os requisitos estabelecidos pelo Tribunal Federal não haviam sido cumpridos.
O Ministério Público enfatizou que o Estudo de Componente Indígena apresentado pela empresa é insuficiente, que a consulta não foi realizada pelo Estado conforme exigido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho e que não pode ser considerada informada enquanto persistirem incertezas cruciais quanto ao regime de operação da barragem hidrelétrica de Belo Monte.
“A Belo Sun não cumpriu a decisão judicial que exigia Estudos de Componente Indígena baseados em dados primários e a realização de Consulta Livre, Prévia e Informada”, afirmou o Ministério Público, ressaltando a necessidade de avaliar os impactos cumulativos e sinérgicos relacionados ao projeto Belo Monte.
Mulheres indígenas se mobilizam
A anulação da consulta da Belo Sun coincidiu com um importante mobilização liderada por mulheres indígenas do Médio Xingu região. Durante oito dias, eles ocuparam a sede regional da FUNAI (Fundação Nacional do Índio) na cidade de Altamira.
Uma das principais reivindicações do protesto era a oposição ao projeto de mineração. Os membros da comunidade Xikrin, que não foram incluídos no processo de consulta da empresa, exigiram o reconhecimento do seu direito de serem consultados.
Como parte da mobilização, as mulheres indígenas também enviou uma carta à Embaixada do Canadá. No Brasil, indígenas pedem ao governo canadense que investigue as atividades da Belo Sun. Na carta, eles alertam que o projeto ameaça seus territórios, sua segurança alimentar e seus modos de vida, e instam o Canadá a parar de apoiar uma empresa que age contra os povos indígenas e a floresta.
Histórico de falhas em licenciamento e riscos do projeto
Análises independentes, incluindo Belo Sun: Um Negócio Arriscados publicada pela Amazon Watch em 2022 e Minando Direitos (Direitos de mineração ameaçadosOs relatórios divulgados pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI) do Brasil durante a COP30 documentam falhas persistentes no processo de licenciamento da Belo Sun.
Esses relatórios concluem que as comunidades indígenas do Volta Grande do Xingu nunca foram consultadas de forma livre, prévia e informada, conforme exigido pela legislação brasileira e pelas normas internacionais. Constatam também que o processo de licenciamento falhou em avaliar adequadamente os impactos cumulativos e sinérgicos associados à barragem de Belo Monte, incluindo o colapso da pesca, a drástica redução da vazão do rio e a insegurança alimentar generalizada que afeta as comunidades indígenas e ribeirinhas.
Os mesmos estudos alertam para os riscos significativos associados à barragem de rejeitos e aos reservatórios de resíduos propostos para o projeto, que poderiam impactar catastroficamente os Territórios Indígenas de Paquiçamba e Arara da Volta Grande, ambos oficialmente reconhecidos desde a década de 1980, bem como as comunidades tradicionais e os assentamentos rurais circundantes.



