“Pretendemos realizar um novo treinamento para brigadeiros na Reserva Tapajós-Arapiuns, para que neste ano não sejamos pegos de surpresa.”
– Lucas Tupinambá, Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns
No ano passado, quase 7 milhões de hectares de floresta tropical primária foram queimados, marcando a primeira vez que os incêndios foram a causa principal causa da perda de florestas na Amazônia. Esses incêndios – alimentados pelo desmatamento ilegal, indústrias extrativas, crime organizado e uma seca histórica causada pela crise climática – foram os piores da história.
Este ano, a perspectiva parece diferenteSegundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e a rede MapBiomas, até 22 de agosto de 2025, o Brasil registrou 39,740 focos de incêndio – uma redução de 59% em relação ao mesmo período de 2024. Na Amazônia, foram registrados 13,446 focos de incêndio entre janeiro e agosto, 67% abaixo da média histórica de 41,057 para o mesmo período. A área queimada entre janeiro e julho foi de 1.1 milhão de hectares, 70% a menos que no mesmo intervalo do ano passado e o menor nível desde 2019.
Embora esses números sugiram progresso, a crise está longe de terminar.
Vários fatores explicam o declínio: a diminuição do El Niño, o reforço das brigadas de incêndio e a implementação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo. Chuvas mais prolongadas deixaram os rios mais cheios e a vegetação mais verde, reduzindo temporariamente o risco dos incêndios de grande escala que dizimaram o bioma em 2024.
No entanto, especialistas alertam contra a complacência. As projeções para dezembro e janeiro permanecem incertas, com receios de um ressurgimento da atividade de incêndios. Mato Grosso – historicamente um dos estados mais afetados – continua registrando a maior concentração de focos de incêndio, mesmo que em um nível menor do que o habitual.
E, além das estatísticas, as cicatrizes de 2024 permanecem abertas. Na Reserva Extrativista (AP) Tapajós-Arapiuns, quase metade do território queimou no ano passado. Hoje, há apenas nove brigadas em operação para cobrir mais de 600,000 hectares – longe do suficiente para defender terras tão vastas. Comunidades indígenas e locais ainda carecem de recursos adequados para proteger suas florestas. Como explica Lucas Tupinambá, as brigadas são subfinanciadas, os equipamentos especializados são proibitivamente caros e pelo menos quatro territórios permanecem sem equipes de combate a incêndios.
Esses incêndios não são desastres naturais. São provocados pelo homem, impulsionados pelo desmatamento para a pecuária e monoculturas, grilagem de terras, indústrias extrativas e economias criminosas. A crise climática, por meio do agravamento das secas, acelera essas faíscas provocadas pelo homem, transformando-as em infernos incontroláveis.
A solução também é de criação humana: promover os direitos dos povos indígenas aos seus territórios. Pesquisas científicas confirmam que terras administradas por indígenas são as barreiras mais eficazes contra o desmatamento e os incêndios. Onde os direitos indígenas são garantidos e aplicados, as florestas prosperam – e o clima global também.
A modesta redução no número de incêndios deste ano reforça o ponto: as próprias comunidades estão se organizando, formando brigadas e exigindo recursos. Mas elas não podem – e não devem – ser deixadas sozinhas com essa responsabilidade.
A floresta amazônica permanece em um ponto crítico de inflexão. Cientistas alertam que a destruição contínua pode interromper permanentemente os padrões de chuva na América do Sul e acelerar o caos climático global. No entanto, hoje, a floresta continua sendo um estabilizador climático inestimável e um reservatório de biodiversidade.
Defendê-la significa defender a soberania indígena. Significa responsabilizar governos e corporações por alimentar o desmatamento. E significa rejeitar a falsa lógica que vê a Amazônia como dispensável na busca do lucro.
Os incêndios de 2025 são um lembrete: embora a escala da destruição possa aumentar ou diminuir a cada ano, os fatores subjacentes permanecem. Sem ação, qualquer alívio é temporário.
Todos têm um papel a desempenhar. Todos dependem da Amazônia..
Amazon Watch continua a promover os direitos indígenas e os esforços de titulação de terras. Nosso Fundo de Defensores da Amazônia diretamente apoia brigadas de incêndio lideradas por indígenas e seu trabalho essencial de preparação para inevitáveis surtos futuros.
Com o crescente apoio de aliados globais, podemos garantir que o frágil alívio deste ano se torne a base para uma proteção duradoura — e não apenas uma pausa antes do próximo inferno.




