O cacique Raoni Metuktire, uma das lideranças indígenas mais respeitadas do Brasil e símbolo mundial da luta pela proteção da Amazônia, concedeu entrevista exclusiva ao O Globo apenas dois meses antes do início da COP30 em Belém.
Na conversa, Raoni levanta preocupações sobre o futuro dos territórios indígenas e o clima, alertando que tanto o Congresso brasileiro quanto o atual governo estão impulsionando projetos destrutivos como o “Projeto de Lei da Devastação, "O Prazo (“Limite de tempo”) truque para limitar o reconhecimento de terras indígenas, ferrovias na floresta tropical e exploração de petróleo na costa amazônica.
Enquanto o Brasil apresenta a COP30 como um marco para a diplomacia climática, as palavras de Raoni revelam uma contradição gritante: o mesmo governo que promete liderança climática também apoia iniciativas que ameaçam florestas, rios e a sobrevivência dos povos indígenas. Sua mensagem é clara: sem um compromisso real com a proteção da Amazônia e o respeito aos direitos indígenas, as promessas globais permanecerão vazias.
Leia abaixo uma tradução em inglês da entrevista.
O líder indígena Raoni Metuktire subiu a rampa do Palácio do Planalto ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em janeiro de 2023, prometendo que as vozes dos povos indígenas seriam incluídas nas discussões do novo governo. Quase três anos depois, porém, o cacique avaliou que o líder do Partido dos Trabalhadores não cumpriu sua promessa ao demonstrar apoio a projetos com impacto significativo nos territórios dessas comunidades.
Às vésperas da COP30, Raoni também se mostra cético em relação à reunião ambiental que será realizada de 10 a 21 de novembro em Belém. O cacique diz temer que uma conferência não seja suficiente para conter o desmatamento no Brasil e critica a atuação do Congresso na aprovação de iniciativas como o marco temporal para a demarcação de novas reservas para municípios indígenas e o projeto de lei que flexibiliza o licenciamento ambiental. Alguns dos pontos mais criticados pelos ambientalistas foram vetados por Lula no mês passado. "É muito triste ver o que está acontecendo", lamenta o líder indígena, que acredita não haver preocupação com a preservação da biodiversidade para as gerações futuras.
O Brasil sediará a COP30 este ano no coração da Amazônia. O que você espera da conferência?
Talvez esta reunião em Belém seja apenas uma conversa, porque o desmatamento vai continuar. Em Itaúba, no Mato Grosso, há muita madeira para ser cortada. Estou muito triste com isso. Acho que as autoridades precisam acertar para evitar mais desmatamento. Elas precisam garantir que as florestas sejam preservadas para a sobrevivência de todos nós.
Além do cronograma para a demarcação de terras indígenas, questões criticadas por ambientalistas, como o projeto de lei para licenciamento e exploração de petróleo na Bacia do Rio Amazonas, na Margem Equatorial, defendido pelo próprio presidente Lula, estão avançando e recebendo apoio no Congresso. O senhor está preocupado com a atuação dos parlamentares?
É muito feio ver o que está acontecendo. Os congressistas só pensam em destruição. Pelo contrário, deveriam pensar na geração mais jovem, para que ela tenha ar puro para respirar. Deputados e senadores querem destruir tudo para seu próprio benefício. Estamos pensando individualmente, não no panorama geral.
Em relação ao Ministério dos Povos Indígenas, o ministério tem conseguido cumprir sua missão?
Não é bom que o governo exija o ministério e não lhe ofereça autonomia. São necessários recursos para facilitar o acesso dos povos indígenas ao conhecimento sobre os mecanismos desse trabalho, além de continuar os esforços para defender seu território. É assim que deve ser.
Você subiu a rampa do Planalto com Lula em 2023, e hoje a obra da Ferrogrão, que afeta as terras onde você mora, no Mato Grosso, faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento. Como você avalia esse cenário?
“Você nunca me engana, porque eu sou muito atencioso. Quando fui convidado para subir a rampa com o Lula, aceitei depois de longas conversas com ele. Eu disse ao presidente que qualquer ação ou projeto que interfira na terra indígena ou no nosso povo deve ser consultado por nós. Eu disse ao Lula: 'Não se deixe levar pela opinião dos outros. Você pode me consultar sobre qualquer assunto e discutir.' O Lula não está fazendo isso, o que não é bom. A Ferrogrão não será boa para os povos indígenas ou não indígenas. A forma como o governo está oferecendo este projeto não é correta.”
Os indígenas também temem a expansão da produção de soja devido ao projeto?
A soja não é boa para nós, povos indígenas. Como xamã, vejo isso acontecendo e tenho dito a vocês, brancos. Mas vocês são muito teimosos e continuam a causar devastação. Minha preocupação é que, se esse ritmo de destruição continuar, poderemos ter consequências como desastres e ameaças à vida de toda a humanidade, não apenas de nós, povos indígenas.
Como o senhor avalia os danos causados pelos incêndios nas comunidades do Mato Grosso?
Quando um incêndio começa, as autoridades governamentais devem tomar medidas imediatas para combatê-lo. Vi incêndios e muitos incêndios. Estou triste. Isso não é bom e traz problemas para toda a população.
contexto
Após atrasos nas discussões internas e um impasse jurídico, o governo federal aguarda decisão do Supremo Tribunal Federal para dar prosseguimento ao projeto da Ferrogrão, ferrovia considerada essencial para o agronegócio na região Centro-Oeste. Raoni mora na Terra Indígena Capoto-Jarina, que pode ser impactada pelo projeto.
Ambientalistas temem a explosão da monocultura nas margens de terras indígenas, como a de Raoni, e citam a possibilidade do aumento da pulverização de agrotóxicos, que já contamina rios e peixes. Eles também temem o aumento da especulação imobiliária, a perseguição de defensores, a grilagem de terras e o desmatamento.
Listada como um dos projetos do novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a ferrovia Ferrogrão tem 933 quilômetros de extensão e ligará as cidades de Sinop (MT), uma das maiores produtoras de grãos do país, e Itaituba (PA), às margens do Rio Tapajós.
O projeto foi contestado no Supremo Tribunal Federal por cortar uma reserva federal, o Parque Nacional do Jamanxim. A rota foi redesenhada e, segundo informações do governo à Corte, a questão foi resolvida. No entanto, ainda há resistência interna, como dentro do Ministério do Meio Ambiente.
Em março de 2024, Raoni proferiu decisão contra a Ferrogrão a Lula e ao presidente francês Emmanuel Macron, proferida por um tribunal composto por representantes de povos indígenas, comunidades tradicionais, organizações e movimentos sociais do Pará e do Mato Grosso. Os participantes alegaram violações ao direito à livre consulta e subestimação dos impactos ambientais, entre outras questões.
Quando contatado por O Globo, o Ministério do Meio Ambiente afirmou que o projeto Ferrogrão “prevê construção em área ambientalmente sensível” e deve ser “submetido a análises tecnicamente compatíveis dos impactos socioambientais de qualquer potencial projeto de implantação, visando a mitigar as repercussões previstas”.
A análise está sendo conduzida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e está em fase inicial.
“Apesar de ainda não terem sido formalmente incluídos no processo de aprovação, o Ministério do Meio Ambiente e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade apresentaram pareceres técnicos que reforçam a base científica e jurídica da análise ambiental.
Além disso, os Planos de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas já indicam ações para conter e prevenir o desmatamento, bem como identificam áreas prioritárias para plantios compensatórios, estratégia de reflorestamento que busca reduzir os impactos de obras de infraestrutura”, afirmou o ministério.





