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O veto parcial do Brasil ao “Projeto de Lei da Devastação” é uma vitória popular, mas a luta não acabou

Veto parcial protege salvaguardas ambientais importantes, mas brechas perigosas ainda colocam a Amazônia em risco

12 de agosto de 2025 | Daleth Oliveira e Ana Carolina Alfinito | De Olho na Amazônia

Crédito: Carolina Fasolo/ISA

Na semana passada, em Brasília, o poder da ação coletiva repercutiu no cenário político brasileiro. Após meses de mobilização local e internacional, o governo brasileiro vetou 63 dispositivos do Projeto de Lei 2.159/2021 – amplamente conhecido como Projeto de Lei do Licenciamento Ambiental, ou "Projeto da Devastação".

Foi uma vitória parcial, mas importante. A decisão foi tomada poucos dias depois de líderes indígenas, movimentos populares e defensores do meio ambiente terem apresentado mais de um milhão de assinaturas de petição ao presidente Lula. Muitas dessas assinaturas vieram de Amazon Watch apoiadores que agiram por meio de nossa campanha online, juntando-se a um coro global exigindo um veto total.

Essa onda de a solidariedade internacional importava. Isso mostrou que o mundo está observando e tornou mais difícil para o governo ignorar o chamado.

“Os vetos anunciados são um alívio necessário e demonstram que o governo ouviu parte da mobilização da sociedade. Houve avanços importantes, mas o caminho ainda é longo”, explicou Célia Xakriabá, liderança indígena e deputada federal. “O Congresso analisará os vetos e os textos complementares em meio a uma forte tensão política, e a mobilização da sociedade civil continuará sendo essencial para garantir que nossa legislação ambiental sirva como instrumento de proteção – e não de destruição – da natureza, das pessoas e de processos transparentes e justos, em respeito à Constituição e aos tratados internacionais.”

O veto suspende algumas das piores disposições do projeto de lei. Bloqueia a expansão da Licença por Adesão e Compromisso para projetos de médio impacto, impedindo empresas de prosseguir com empreendimentos de risco baseados apenas em autodeclaração. Mantém a proteção de Unidades de Conservação, comunidades indígenas e quilombolas e biomas ecologicamente vitais, como a Mata Atlântica. E preserva a exigência de estudos de impacto ambiental, reafirmando a autoridade de órgãos como Ibama, ICMBio e Iphan.

Mas, como muitos líderes indígenas deixaram claro, o projeto de lei ainda deixa brechas perigosas que colocam as pessoas e o planeta em risco.

Mais de 500 terras indígenas permanecem sem reconhecimento devido a décadas de negligência governamental, o que as torna invisíveis no processo de licenciamento. Limites arbitrários de distância – como a regra de 8 km para projetos de mineração – significam que uma comunidade a apenas 8.5 km de uma mina pode ser ignorada, mesmo que o projeto ameace suas águas, florestas e seu modo de vida. Essa ficção jurídica representa uma ameaça existencial às comunidades que permanecem invisíveis no processo de licenciamento.

Uma das disposições mais controversas do projeto de lei – a Licença Ambiental Especial – também sobreviveu. Mantida por meio de um novo decreto, ela cria uma via rápida para projetos de infraestrutura, mineração e petróleo de alto impacto em algumas das partes mais vulneráveis da Amazônia.

Qual é o próximo?

Com a COP30 em Belém a poucos meses de distância, o Brasil teve a chance de enviar ao mundo uma mensagem ousada sobre seu compromisso com a justiça climática. Em vez disso, transmitiu uma mensagem ambígua – um recuo parcial, mas não uma defesa plena da Amazônia ou dos direitos indígenas.

É por isso que a luta não acabou. Precisamos:

  • Pressione o Congresso para manter os vetos de Lula ao “Projeto de Lei da Devastação”: Revogá-las enfraqueceria o licenciamento ambiental, minaria as proteções e violaria os direitos das comunidades tradicionais. A pressão pública continua decisiva.
  • Reconhecimento antecipado e demarcação de todas as terras indígenas: Mais de 530 reivindicações de terras aguardam homologação da FUNAI, deixando as comunidades vulneráveis à grilagem de terras, ao desmatamento e à exclusão de proteções de licenciamento. Continue pressionando pelo reconhecimento e demarcação de todas as terras indígenas.
  • Acabar com as regras arbitrárias de distância de impacto: O limite de 8 km para projetos de mineração ignora a ciência e a consulta aos povos indígenas. O impacto deve ser definido por ameaças reais à água, às florestas e às pessoas.
  • Impor salvaguardas à Licença Ambiental Especial: Sem limites rígidos, supervisão e critérios ambientais e sociais fortes, isso poderia acelerar projetos destrutivos em ecossistemas sensíveis e territórios tradicionais.
  • Centralize a liderança indígena na formulação de políticas: Respeitar o Consentimento Livre, Prévio e Informado e garantir espaço e financiamento para propostas lideradas por indígenas na governança ambiental.

Amazon Watch continuaremos trabalhando ao lado de nossos parceiros indígenas para fechar essas brechas e defender a Amazônia – e sabemos que podemos contar com vocês para nos apoiar.

Esse veto parcial aconteceu porque pessoas no Brasil e no mundo inteiro se manifestaram. Vamos manter a pressão!

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