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Protesto não violento dos Munduruku pelos direitos às terras indígenas chega ao Supremo Tribunal Federal

29 de abril de 2025 | Ana Carolina Alfinito | De Olho na Amazônia

Crédito: Frank Akay Munduruku

No dia 15 de abril, representantes do movimento de resistência Munduruku se reuniram com o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes para exigir a anulação da Lei Federal 14.701/23 e a cessação das tentativas do Supremo Tribunal Federal (STF) de reduzir os direitos constitucionais indígenas.

A audiência com o Ministro Mendes foi fruto de uma luta incansável. Durante duas semanas, um contingente de cerca de 150 representantes Munduruku bloqueou a rodovia Transamazônica do Brasil exigindo que suas vozes sejam ouvidas pelo STF. A mobilização também chamou a atenção para o agravamento dos ataques às florestas e aos povos da floresta no estado do Pará, sede da COP30 deste ano.

Durante a ocupação da Transamazônica, os Munduruku realizaram protestos pacíficos e cumpriram ordens judiciais para liberar a rodovia em determinados horários do dia. O protesto ocorreu em um trecho estratégico para o escoamento de grãos entre o estado do Mato Grosso e portos fluviais do Pará, localizado na cidade de Itaituba, na bacia do médio rio Tapajós. A região é ameaçada pela mineração ilegal de ouro, expansão da soja e projetos de infraestrutura que violam os direitos indígenas, como Ferrogrão – uma ferrovia projetada para impulsionar as exportações de soja através do Tapajós, um dos afluentes mais importantes da Amazônia.

Durante o bloqueio, os manifestantes Munduruku foram vítimas de racismo, agressões verbais, ameaças e violência física por parte de caminhoneiros que transportavam produtos agrícolas. Implacáveis, os Munduruku manifestaram-se com faixas e declarações que condenaram as ações do STF para silenciar suas vozes e restringir severamente os direitos territoriais indígenas. Eles exigiram ser ouvidos diretamente pelo STF em todas as questões que os afetam, especialmente na "Comissão Especial" instituída pelo Ministro Mendes para regulamentar – e minar – os direitos constitucionais indígenas. 

A Comissão, também designada por “Arena de Negociação”, é uma ad hoc Grupo de Trabalho instituído pelo Ministro Mendes para discutir mudanças na regulamentação dos direitos territoriais indígenas. A comissão foi criada após o Congresso aprovar a Lei Federal 14.701/23, derrubando vetos do Presidente Lula, que estabelecia um conjunto de barreiras inconstitucionais ao direito indígena aos seus territórios ancestrais. Em vez de realizar uma revisão judicial da legislação, o Ministro Mendes formou a comissão para estabelecer uma "solução consensual" para o "problema" dos direitos territoriais indígenas. No entanto, as "soluções" propostas visam suprimir as perspectivas indígenas e barrar suas legítimas reivindicações à terra. 

A Comissão é composta por representantes de setores políticos e econômicos anti-indígenas. As vozes do agronegócio e da indústria extrativa dominam as propostas em discussão: a abertura de terras indígenas ao extrativismo em larga escala, incluindo a mineração industrial; a restrição do direito à Consulta Livre, Prévia e Informada; a criação de barreiras à demarcação de terras indígenas; e o desenvolvimento de projetos de infraestrutura e militares em terras nativas sem o consentimento da comunidade. Enquanto isso, associações e movimentos populares indígenas têm sido excluídos das discussões que colocam em risco seus direitos e sua existência.

Em 8 de abril, após duas semanas de protestos na rodovia Transamazônica, os Munduruku receberam uma mensagem do Ministro Mendes: ele receberia seus representantes no dia 15 de abril. O movimento seguiu imediatamente para Brasília, onde se reuniu com a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), o Ministério da Justiça e o Ministério da Saúde antes de se reunir com o Ministro Mendes. 

Durante a reunião, os Munduruku criticaram o STF por negociar com representantes do agronegócio e da mineração sem incluir todos os povos indígenas diretamente afetados. A delegação entregou uma carta assinada por seis organizações Munduruku, denunciando que o tribunal vem realizando "reuniões a portas fechadas, sem consulta livre, prévia e informada, enquanto os processos de demarcação de terras permanecem ameaçados ou paralisados".

Os Munduruku também se opuseram à proposta de Gilmar Mendes, considerada ilegítima pelo movimento indígena brasileiro, que visa substituir a Lei 14.701/23. Em troca da retirada formal da Prazo tese, a proposta impõe novas barreiras à demarcação de terras, prevê compensação financeira a ocupantes não indígenas que são removidos de terras indígenas em processos de demarcação e permite que projetos considerados de “relevante interesse público da União” sejam implementados em territórios indígenas, ao mesmo tempo em que nega às comunidades afetadas o direito de consentimento.

Na carta entregue ao ministro, os Munduruku insistiram que todas as decisões relativas aos seus territórios devem respeitar a Constituição e o direito à consulta garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. “Não reconhecemos esta negociação sem a nossa presença ou consentimento!”, afirma a carta.

Embora o Ministro Mendes só tenha concordado em receber a delegação indígena após um árduo e perigoso bloqueio de duas semanas na Transamazônica, ele afirmou que as portas do Supremo Tribunal Federal e de seu gabinete permanecem abertas ao diálogo com os povos indígenas. Ele não se comprometeu com nenhuma das demandas apresentadas, mas afirmou que levaria os argumentos dos Munduruku em consideração nas próximas fases do processo de conciliação.

Crédito: Coletivo Audiovisual Da'uk

“Foi uma luta para chegar a esta reunião. Passamos dias e noites sob sol e chuva, bloqueando o transporte de cargas na rodovia. Tivemos que dar um soco no bolso do agronegócio para sermos ouvidos pelo STF”, disse Alessandra Korap, uma liderança Munduruku.

Como parceiros de longa data dos Munduruku, Amazon Watch apoiaram suas recentes mobilizações, bem como sua audiência no Supremo Tribunal Federal. Neste momento crítico para a defesa dos direitos humanos e da proteção ambiental no Brasil, o apoio e a vigilância da comunidade internacional são vitais para garantir a defesa dos direitos indígenas e a conservação da floresta amazônica para as gerações futuras.

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