Em julho de 22, Amazon Watch, organizações da sociedade civil brasileira e movimentos sociais unidos em defesa dos direitos territoriais publicaram um Nota técnica (essencialmente um relatório investigativo) intitulado “Direitos e prioridades: a mineração pode substituir a reforma agrária?” analisando e denunciando a Portaria 112/2021 (IN 112).
A Portaria Executiva 112 foi aprovada durante o governo Bolsonaro em 2021 pelo Instituto de Colonização e Reforma Agrária do Brasil (INCRA). A portaria estabeleceu novas regras para o uso de áreas de assentamento por projetos de mineração, energia e infraestrutura. Apesar de anos de escrutínio e protestos da mídia, a IN 112 continua a representar riscos para a proteção ambiental e a violar os direitos territoriais das comunidades locais, ao facilitar a atribuição de áreas de assentamento rural – que deveriam ser destinadas à produção de alimentos, à soberania alimentar e à defesa ambiental – para empresas de mineração e outros projetos industriais.
Para pressionar o governo federal a revogar a IN 112 e possibilitar a participação efetiva da sociedade civil no tema, Amazon Watch aliou-se a uma coalizão de pesquisadores, organizações da sociedade civil e movimentos sociais para preparar o Nota técnica apontando para as deficiências jurídicas, técnicas e políticas do regulamento atual.
“Direitos e prioridades: a mineração pode substituir a reforma agrária?” foi organizado por Amazon Watch, Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), Associação Regional de Produtores Agroecológicos (ARPA), Coletivo de Pesquisa, Economia e Política sobre Desigualdades Ambientais, Comitê em Defesa dos Territórios contra a Mineração (CDTM), Centro de Tecnologia Alternativa do Vale do Guaporé – CTA; FASE – Solidariedade e Educação; Federação das Associações de Moradores do Projeto de Assentamento Agroextrativista da Gleba Lago Grande (FEAGLE), Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Centro de Política, Economia, Mineração, Meio Ambiente e Sociedade ( PoEMAS), Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA) e Rios Internacionais.
A Nota Técnica foi lançada no primeiro dia do seminário “Política Fundiária e Lutas pela Terra e pelo Território”, que aconteceu de 22 a 24 de julho, em Brasília. Amazon Watch A Assessora de Campanha do Brasil, Gabriela Sarmet, participou do evento e trabalhou em conjunto com aliados e parceiros para pressionar o governo brasileiro, realizando reuniões de defesa com o presidente e assessores do INCRA e o Secretário Geral da Presidência. Infelizmente, o INCRA não se reuniu com a nossa coalizão. Em vez disso, a instituição apenas indicou que haveria um seminário público e uma consulta para discutir a política contenciosa, que incluirá várias partes interessadas, incluindo empresas mineiras. Isto é inaceitável e profundamente preocupante, especialmente considerando o compromisso do actual governo com um diálogo sincero com a sociedade civil.
Nossas demandas não são irracionais. Estamos simplesmente enfatizando os perigos de permitir que a mineração se sobreponha ao dever constitucional do governo brasileiro de garantir a reforma agrária, a justiça social e a proteção ambiental. A reforma agrária é uma política de reparação para pessoas que foram historicamente privadas de acesso à terra devido a um passado colonial racista e elitista.
Considerando o compromisso primordial do Presidente Lula com o combate à fome, é urgente que o governo revisite a política da era Bolsonaro, suspenda-a imediatamente e promova um debate abrangente com a sociedade civil. Devemos desenvolver regulamentações alternativas que não comprometam os direitos da reforma agrária e a produção de alimentos, nem ameacem a soberania alimentar ou a proteção da Amazônia em favor dos interesses mineiros.
A revogação da portaria é particularmente urgente dado que esta política está sendo amplamente explorada na região amazônica, inclusive pela mineradora canadense Belo Sun Mining Corporation para viabilizar a notória megamina de Volta Grande, às margens do Rio Xingu.
Apesar desse revés com o INCRA, nossa coalizão teve uma reunião produtiva com a Secretaria-Geral da Presidência da República e a nova Mesa de Diálogo Mineiro, órgão recentemente criado no âmbito do governo federal. Esta entidade, semelhante a um ministério, comprometeu-se a facilitar um diálogo aberto e honesto entre a sociedade civil e o INCRA, bem como outros órgãos influentes. Este é um passo positivo para garantir que o direito à reforma agrária e à soberania alimentar no Brasil não seja prejudicado pelos interesses mineiros.
Os riscos da IN 112
A IN 112 representa riscos significativos para os assentamentos rurais no Brasil, especialmente aqueles na região amazônica. Diferentemente dos procedimentos existentes que tratam de conflitos de interesse pelo uso da terra, a IN 112 permite a coexistência de projetos de mineração, infraestrutura e energia com terras destinadas à agricultura familiar. Isto apesar de evidências substanciais que mostram os impactos negativos de projectos económicos tão grandes nestas áreas agrícolas.
A IN 112 carece de procedimentos ou critérios claros para que o INCRA determine quando esses projetos são incompatíveis com assentamentos de reforma agrária. Não especifica se o INCRA deve rejeitar o projeto ou realocar o assentamento em tais casos. Em vez disso, a política simplifica efetivamente o processo de aprovação, limitando o papel do INCRA ao cálculo de danos e compensações para os assentados e para o Estado.
A análise apresentada em nosso Nota técnica revela ainda que embora a IN 112 afirme que suas compensações, indenizações e condições visam harmonizar os projetos industriais com a continuidade dos assentamentos, algumas dessas mesmas condições contradizem o Plano Nacional de Reforma Agrária. Estas incluem a possibilidade de reassentar ou realocar as famílias afectadas.
Outra grande preocupação é a falta de mecanismos que garantam a consulta e participação dos assentados rurais no processo de aprovação do INCRA. Além das audiências durante o processo de licenciamento, não há disposições para convocar, ouvir ou notificar os assentados. A norma também não menciona o consentimento livre, prévio e informado (CLPI), conforme exigido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, levantando preocupações significativas, o que é especialmente crucial para comunidades com laços tradicionais com áreas ambientalmente sensíveis como a floresta amazónica.
De acordo com dados da Agência Nacional de Mineração, em janeiro de 2022 havia 20,000 mil solicitações de mineração ativas afetando assentamentos de reforma agrária. Dos 8,372 assentamentos do país, 3,309 (39%) estão sujeitos a solicitações de mineração, com quase metade localizada na Amazônia brasileira (1,480 projetos, ou 44.7% dos assentamentos com interesses minerários). Em vez de proteger as terras designadas para a reforma agrária das pressões da mineração, a IN 112 prioriza os interesses económicos privados. Esta tendência destaca a crescente normalização e aceitação de dar prioridade aos interesses económicos em detrimento da redistribuição de terras e das políticas de produção alimentar, que são essenciais para abordar as desigualdades sociais, ambientais e alimentares.
Recomendamos que o INCRA suspenda imediatamente a IN 112 e a substitua por uma política que regule melhor a histórica relação desigual entre grandes empresas privadas e pequenos agricultores em assentamentos rurais. Esta nova política deve respeitar os direitos desses assentados rurais, atender à crescente demanda pela produção de alimentos e fortalecer a política de reforma agrária do Brasil, e deve fazê-lo de uma forma que reconheça o papel que os pequenos agricultores, ribeirinhos e assentamentos rurais têm na proteção do meio ambiente e da floresta amazônica e de outros biomas.
O Presidente Lula e sua nova administração, ao assumirem o cargo, assumiram compromissos claros com as causas socioambientais, e devemos instá-los a cumprir essas promessas. Como continuação do nosso trabalho de coligação, acompanharemos de perto o desenvolvimento e as discussões para revogar a IN 112.



